quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

#aldorebelofacts Conheça os projetos do futuro novo ministro de CT&I

A depender das posições já manifestadas pelo atual Ministro dos Esportes e futuro Ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação (cuidado! contém paywall poroso), deputado Aldo Rebelo, podemos projetar algumas mudanças que implementará à frente do MCTI.
Obs. Novas propostas serão acrescentadas futuramente.
*Upideite(24/dez/2014): adido a esta data.
**Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Analfabetismo Miojal

Quando até fazer *miojo* é visto como algo que deve ser paulofreirizado, começo a entender receita de miojo em redação do ENEM...

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Sério, pra ensinar a fazer miojo é preciso ressignificar o miojo na vida cotidiana das pessoas... Provavelmente também tem que eliciar questionamentos a respeito da organização social que permite que se obtenha o miojo nas vendinhas e a questão da distribuição de renda que impede que todos tenham acesso ao miojo. Claro, na transdisciplinaridade, discutir o teor de sódio e calorias vazias do produto e as implicações sobre a medicalização na sociedade contemporânea.

Imagino que pra ensinar a fazer miojo *de verdade* tenha que ser assim, então:
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Miojo 101: Introdução Epistemológica e Funcional da Miojocidade na Sociedade Pós-Industrial Ocidental, uma Análise Pós-Conceitual da Ritmicidade Neocapitalista
NATUREZA. Semestral. PERÍODO. 16° semestre.
PRÉ-REQUISITOS. História dos Alimentos 4; Sociologia 6; Cálculo 2; Séries e Equações Diferenciais 2; Termodinâmica 2; Engenharia de Materiais 1; Nutrologia Básica; Nutrologia Avançada; Fisiologia Humana 2; Operações Unitárias; Direito Romano 2; Psicologia e Psicopedagogia 4; Polímeros 3; Direito do Consumidor 2; Ecologia 4; Antropologia 4; Física 6; Tópicos Avançados de Cosmologia 2; Física Quântica 3; Geografia Humana 5; Economia Doméstica 3; Microeconomia 7; Microbiologia 3.
CARGA. 90h; TEÓRICA. 30h; PRÁTICA. 60h.
EMENTA. Preparo de macarrão instantâneo no ambiente doméstico. Variações de preparo do macarrão instantâneo no ambiente doméstico. História do preparo do macarrão instantâneo. Saquinho ou cup noodles? Possíveis aplicações comerciais de habilidades de preparo de macarrão instantâneo. Problematização do preparo do macarrão instantâneo. Avaliação organoléptica do produto do preparo do macarrão instantâneo no ambiente doméstico. Relações familiares e o preparo do macarrão instantâneo. Tópicos atuais do preparo do macarrão instantâneo.
AVALIAÇÃO. 4 testes discursivos (peso 3); prova prática 1 (peso 5); prova prática 2 (peso 5).
PRESENÇA MÍNIMA OBRIGATÓRIA. 75%.
NOTA MÍNIMA PARA APROVAÇÃO. 7.
BIBLIOGRAFIA OBRIGATÓRIA.
Caldwel. 2002. The Taste of Nationalism: Food Politics in Postsocialist Moscow. DOI: 10.1080/0014184022000031185;
Choo et al. 2008. Too Hot to Handle—Instant Noodle Burns in Children. DOI: 10.1097/BCR.0b013e31816679d0;
Crosbi et al. 1999. Starch and Protein Quality Requirements of Japanese Alkaline Noodles (Ramen) DOI: 10.1094/CCHEM.1999.76.3.328;
Deleuze. 1953. Empirisme et subjectivité.
Foucault. 1975. Surveiller et punir.
Kushner. 2014. Slurp! A Social and Culinary History of Ramen -
Japan’s Favorite Noodle Soup. ISBN: 978 90 04 26927 9;
Lee & Lee. 2003. Frequency of Instant Noodle (Ramyeon) Intake and Food Value Recognition, and their Relationship to Blood Lipid Levels of Male Adolescents in Rural Area. Korean J Community Nutr. 2003 Aug;8(4):485-494.;
Lee et al. 2008. Major Dietary Patterns and Their Associations with Socio-Demographic, Psychological and Physical Factors Among Generally Healthy Korean Middle-Aged Women. Korean J Community Nutr. 2008 Jun;13(3):439-452;
Marx. 1867. Das Kapital.
Okada & Ihida. 1968. Studies on the Storage of Instant Ramen (Fried Chinese Noodle) Part II. 日本食品工業学会誌;
Wang et al. 2011. Effect of phosphate salts on the Korean non-fried instant noodle quality. DOI: 10.1016/j.jcs.2011.09.008;
Xu. 2012. The plasticizer crisis affects on instant noodle packaging materials.
OBS. Esta disciplina é pré-requisito para Miojo 102.
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Upideite(28/nov/2014):
*Upideite(29/11/2014): Acrescentei um print que havia me escapado - mas que não muda o contexto da troca de comentários. É o que começa com: "agora vejamos o exemplo do Roberto Takata sobre a aula simples".

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Lama de perfuração

Escrevi alhures em 16/nov/2014:
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"Estadão 14/nov/2014: 'Nos depoimentos, os delatores do esquema - que esperam ter suas penas reduzidas após colaboração com a Justiça - disseram que o cartel das empreiteiras funciona ao menos desde os anos 1990 fraudando contratos. Entre elas, havia um grupo de VIPs, supostamente formado por Odebrecht, UTC, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e OAS, que tinha maior poder de 'persuasão' para ficar com os melhores contratos.'

Anos 1990 pegam: Collor, Itamar, FHC...

Naturalmente é preciso ainda investigar. Mas, sem surpresas, parece ser um esquema antigo que já rolava na Petrobras (e certamente deve rolar em outras estatais também - federais e estaduais).
Parece, sim, que políticos do PT estão implicados - novamente é coisa de investigar e punir em havendo comprovação de culpa - e o fato de continuar a operar nos governos PT é censurável.

A conotação política dada pela oposição e pela situação faz parte. Só fica complicada a indignação seletiva. Não acho que FHC tenha culpa direta no cartório, mas teria a mesma culpa indireta que Dilma e Lula têm. (A favor de Rousseff o fato de o esquema ter sido descoberto por investigação durante seu governo.)

Não tem ninguém que possa apontar o dedo para o outro como vestal. Respinga em todos - com maior ou menor intensidade (repito, só as investigações poderão mostrar).

É um processo de depuração. Pra mim, revela menos a deterioração de nosso sistema do que o inverso: mostra a capacidade que desenvolvemos como nação e país de detectar e punir os malfeitos. É um feito quase histórico que os corruptores - que não são sardinhas no oceano - terem sido enquadrados.

Não é uma vitória do governo ou da oposição. É uma vitória do país. É uma vitória nossa. E é goooool da Alem... não, é do Brasil, sil, sil."
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Hoje, 21/nov/2014, outro tucano diz basicamente a mesma coisa na Folha:
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"Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos 'cochons des dix pour cent', os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.
[...]
Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.
[...]
Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.

A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.

O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.

É lógico que a defesa desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui não se volta atrás como país.
[...]"
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Má Criação

O ex-presidente da CDMH da Câmara aprontou mais uma e protocolou um projeto de lei, PL 8.099/2014, que torna obrigatório o ensino do criacionismo nas aulas de ciências em todo o país nas escolas públicas e privadas.

Ele chupou o deputado estadual paranaense Artagão Junior que já havia apresentado em 2007 (PL 594/200714) na Assembleia Legislativa do Paraná - e reapresentou este ano (PL 30/2014).

Seguramente, as criaturas sabem que é inconstitucional. Se fazem isso só pra agradar a suas bases ou só pra torrar a paciência dos cidadãos que não seguem suas religiões, eu não sei dizer.

Mas a velha estratégia do duplo padrão. Querem contrabandear o criacionismo para dentro das aulas de ciências com base em argumentos supostamente científicos e religiosos: se se argumenta que religião não deve ser ensinada em aulas de ciências, dizem que é sob a óptica científica de hipótese da diversidade dos seres vivos; se se argumenta que uma teoria já demonstrada falsa não deve ser ensinada em aulas de ciências, dizem que é discriminação religiosa (e que crença religiosa não deve ser alvo de escrutínio científico).

Alguém que diz professar a religião de Cristo deveria se envergonhar de adotar estratégia tão insidiosa e de má-fé, de deturpação e de mentira.

Veja mais em:
DNA Cético: Nunca é demais repetir: criacionismo não é alternativa ao ensino da evolução.
Ceticismo: Mais um projeto de lei para disseminar Criacionismo nas escolas.
Maurício Tuffani: Projeto criacionista de Feliciano é um monumento à ignorância.*
                          Design Inteligente rejeita criacionismo em aulas de ciências**
Dicas de Ciência: Professores, muita atenção!***

*Upideite(15/nov/2014): adido a esta data.
Upideite(17/nov/2014): outra proposição na Câmara dos Deputados com tentativa de introduzir o criacionismo nas escolas públicas - em aulas de ciência ou de história - foi a INC 5.078/2005 do deputado Milton Cardias, do PTB-RS.
**Upideite(17/nov/2014): adido a esta data.
Upideite(25/nov/2014): A Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBEnBio) e a Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec) lançaram uma carta aberta em conjunto contra o PL.
Upideite(26/nov/2014): A Sociedade Brasileira de Física também se manifestou contra.
Upideite(05/dez/2014): A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência publicou carta contrária ao projeto.
***Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.
Upideite(05/mar/2014): O Conselho Federal de Biologia também repudia o projeto.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Aumentou o número de miseráveis no Brasil?

Além da polêmica de retenção da divulgação da pesquisa do Ipea para depois das eleições (uma ação, sim, censurável), com a disponibilização dos dados o foco agora é que a miséria no Brasil teria parado de cair e, pior, teria aumentado - ainda que pouco.

Pegando os dados desde o ano 2003, fazendo uma regressão por uma curva exponencial, temos um ótimo ajuste: R2 = 0,97 (Figura 1).

Figura 1. Evolução do número de miseráveis no Brasil. Fonte: Ipea.


Usando o ajuste exponencial, temos a seguinte tabela (Tabela 1) de diferença entre os valores esperados pela curva e os valores calculados pela metodologia Ipea:

Tabela 1. Evolução do número de miseráveis no Brasil. Fonte: Ipea.
Ano Ipea Previsão Diferença %
2003 26,24 24,77 1,47 5,93
2004 23,58 22,51 1,07 4,77
2005 20,89 20,45 0,44 2,15
2006 17,32 18,58 -1,26 -6,79
2007 16,50 16,88 -0,38 -2,27
2008 14,03 15,34 -1,31 -8,54
2009 13,60 13,94 -0,34 -2,42
2011 11,77 11,51 0,26 2,29
2012 10,08 10,45 -0,37 -3,58
2013 10,45 9,50 -0,95 10,01
Ipea: Dados calculados pelo Ipea (em milhões);
Previsão: Dados calculados pela curva de ajuste (em milhões).

Para α=0,05 e n=8, o valor crítico de t=2,306. t(diferença) = 1,05 e t(%)=2,18. Nos dois casos, não se rejeita a hipótese nula de que a variação seja fruto do acaso.

Não quer dizer que não se deva preocupar com as questões sociais e econômicas e que não se deva atentar para as políticas que levam à redução da miséria. Ela pode, sim, aumentar diante de um quadro econômico ruim de baixo crescimento e uma inflação relativamente alta e persistente.

De todo modo, esse fato parece ter despertado a preocupação social em várias pessoas - inclusive as que estavam reclamando durante o período eleitoral do Bolsa Família e que o governo federal dava mais atenção aos pobres do que à classe média...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Eleições 2014: Pesquisa eleitorais 4 - vaticina vaticinador 2

O maior derrotado nestas eleições foi a Sensus. Menos pelo fato de ter dado números absurdos não corroborados por outros institutos de pesquisa ao longo dos levantamentos para o 2° turno, do que pela língua solta de seu diretor, Ricardo Guedes.

IstoÉ 11.outO tamanho da rejeição à candidatura de Dilma, torna praticamente impossível a reeleição da presidenta
247 11.out "[Aécio] já está eleito"

E a cada hora, ele falava uma coisa que desmentia o que havia dito antes.
247 17.out "Com os candidatos mais conhecidos, a tendência é a de que o voto fique mais consolidado"
IstoÉ 24.outComo no primeiro turno, deverá haver uma grande movimentação do eleitor no próprio dia da votação
Queimou o filme e a língua que nem o Carlos Augusto Montenegro do Ibope nas eleições de 2010.
Há quem fale em manipulação, pela metodologia falha e pelo horário de liberação dos resultados a tempo influenciar no mercado financeiro. Eu não chego a tanto. Mas vale a pena dar uma investigada.
Outros institutos também se deram mal em previsões, mas não foram tão enfáticos nem erráticos quanto a Sensus.

sábado, 25 de outubro de 2014

Eleições 2014: Pesquisa eleitorais 4 - vaticina vaticinador

Não sei se esta é das eleições em que os institutos de pesquisas estão sendo mais questionados. O que vejo nas redes sociais são os que apoiam o candidato A duvidando dos resultados que mostrem vantagem do candidato B, enquanto os que apoiam o candidato B duvidam dos resultados que apontem vantagem do candidato A.

O que, quando analisados em conjunto, os resultados dos diferentes institutos de pesquisa parecem apontar é o fato mais ou menos óbvio de que este 2o turno está sendo dos mais acirrados em tempos recentes: com cada candidato com números próximos à 50% das intenções de votos.

Mas vários analistas, talvez empolgados com esse clima aquecido pela disputa aparentemente apertada, parecem estar dispostos a darem a cara a tapa e cravando resultados não apenas com antecedência como com uma margem pequena para manobras em caso de falha em suas previsões.

De minha parte acho arriscado e desnecessário, porém não deixa de dar uma certa cor. Como tem previsões para todos os gostos, não é possível que todos acertem e eu *vou* cobrar depois a conta.

Como quando Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, vaticinou, ainda em 2009, que Dilma Rousseff não ganharia as eleições de 2010.

A Consultoria Macrométrica, em agosto, cravou que Aécio Neves levaria no 2° turno com 2 a 3,6 pontos de vantagem.

Murilo Hidalgo, do Paraná Pesquisas, afirma que São Paulo decidirá as eleições (bem, não é uma previsão muito arriscada, já que é o maior colégio eleitoral do país - além disso, pode-se falar o mesmo de praticamente qualquer região, uma vez que a diferença tende a não ser muito grande entre o vencedor e o derrotado).

Há histórias um tanto conflitantes em relação a Ricardo Guedes do Instituto Sensus. Segundo o Brasil 247, Guedes disse que Aécio já estaria eleito - quando da publicação do primeiro resultado da pesquisa para o 2° turno, em 11/out - quando o tucano teria 17 pontos de vantagem pelo instituto. Na Isto É, Guedes afirmou: "O tamanho da rejeição à candidatura de Dilma, torna praticamente impossível a reeleição da presidenta". A coisa mudou de figura depois pelo jeito. De acordo também com a Isto É, ele disse, que, assim como ocorreu no 1° turno, deve haver uma grande mudança das intenções de voto dos eleitores mesmo no próprio dia da votação do 2° - quando da publicação da segunda pesquisa, em 24/out, com 9 pontos de vantagem para o senador.  (Ou seja, temos pelo já um furo - que seria praticamente impossível Rousseff vencer; mesmo que Neves vença, ela ainda está no páreo.)

Abaixo figuras plotando os resultados das pesquisas dos diferentes institutos. No painel superior, com dados da Sensus; no painel inferior, com descarte dos dados da Sensus - que são os mais discrepantes do conjunto.

Figura 1. Resultados das pesquisas eleitorais de intenções de votos para presidente no segundo turno das eleições de 2014. Fontes: Datafolha, Ibope, MDA, Paraná Pesquisas, Sensus, Veritás. Painel inferior: com descarte dos dados da Sensus. Dados plotados de acordo com as datas de início dos respectivos campos.

Descartando-se os dados da Sensus, o ajuste linear é razoável (r = 0,78). Não quer dizer que seja o melhor ajuste. Há também problemas em relação ao quanto esses resultados refletem a realidade das intenções de votos e a possibilidade de mudanças de última hora (há pessoas que deixam para decidir no dia da votação - se irão votar e em quem irão votar).

Não me cobrem, não estou cravando a reeleição; mas se eu tivesse que apostar, pelos dados, apostaria nisso.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Eleições 2014: Pesquisas eleitorais 3

Duas observações:

1) Somente institutos mineiros estão dando vantagem para Aécio Neves para além da margem de erro*.
2) Todos os institutos indicam queda nas intenções de voto em Aécio Neves e aumento das intenções de voto em Dilma Rousseff - mas cada qual dentro da margem de erro.

Figura 1. Evolução das intenções de votos para presidente - 2° turbo. VT - Instituto Veritás; SS - Instituto Sensus; DF - Instituto Datafolha; IB - Ibope.

*Upideite(26/out/2014): O Paraná Pesquisas - que não entrou nesta análise - também, em sua primeira pesquisa, mostra vantagem do senador.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Evolução da carga tributária brasileira

A figura abaixo representa a evolução relativa do peso de tributos nas três esferas (municipal, estadual e federal) no PIB - tendo como referência os valores das cargas em 1986.

Figura 1. Evolução da carga tributária brasileira. Valores em 1986 = 1. Fonte: IBPT.

A despeito da frequente grita de que aqui se paga impostos demais, há algumas observações a serem feitas.

1) O maior aumento relativo foram dos tributos municipais. Sim, a base inicial era bem menor (e continua sendo a fração menor dos tributos).
2) Seguido do aumento relativo dos tributos estaduais.
3) O maior aumento relativo dos tributos federais ocorreu durante as gestões de FHC, entre 1995 e 2002 - um aumento de 19,7% em 8 anos.
4) Entre 2003 e 2010, durante a era Lula, o aumento foi de 3,2%.
5) De 2010 a 2013, com Dilma na presidência, o aumento foi de 0,6% - em oito anos, isso resultaria em um aumento de 1,6%.

Houve uma enorme expansão de gastos sociais durante as gestões do PT e, ainda assim, a expansão dos tributos federais foi bem menor do que durante o período governado por FHC.

Eleições 2014: Pesquisas eleitorais 2

Como sói em toda eleição, diversas teorias da conspiração, que houve manipulação dos resultados, que os institutos falharam nos resultados do primeiro turno...

Houve, sim, vários resultados que foram fora da margem de erro anunciada, das pesquisas do dia anterior e das de boca de urna. Mas fazem parte das dificuldades inerentes às pesquisas de opinião, especialmente as eleitorais, e particularmente nestas eleições - com uma divisão mais marcada e diferença menor entre os que apoiam a continuidade do governo e os que querem um novo presidente.

Mas continuo a considerar que, de modo geral, as metodologias dos diferentes institutos são robustas. Neste 2° turno, no entanto, os resultados do Instituto Sensus estão em discrepância acentuada em relação a de outros institutos de pesquisa: Datafolha e Ibope, particularmente.

Figura 1. Resultados das pesquisas de intenção de voto para presidente - 2° turno. Datas: início dos períodos de campo.

Conforme o blogue Olho Neles do jornal mineiro O Tempo, há um problema metodológico da primeira pesquisa da Sensus: a amostragem de cidades incluiu mais cidades com mais eleitores de Aécio Neves no 1° turno. Esse viés, que não necessariamente é proposital (embora o fato do instituto de pesquisa em questão ser sediado em MG façam a delícia de teóricos da conspiração, seria uma acusação de grande gravidade dizer o contrário), parece, sim, estar influenciando no resultado. E pode ser a mesma situação da segunda rodada de pesquisa - já que a diferença persiste.

*Upideite(18/out/2014): Valor Econômico traz reportagem sobre repercussões econômicas da divulgação da pesquisa, de modo inusual, ainda com os mercados em operação no dia.
"A divulgação da pesquisa era aguardada para hoje, porém não é usual que os números saiam ainda com o mercado aberto, o que despertou a atenção dos operadores. 'Alguém ganhou muito dinheiro com isso. Não faz sentido soltar pesquisa com mercado aberto e a pesquisa mostrar uma vantagem de votos desse tamanho', disse a fonte, ao lembrar que os levantamentos feitos por Ibope e Datafolha nas duas últimas semanas apontam empate técnico na corrida ao Palácio do Planalto."

Upideite(28/out/2014): O blog Olho Neles traz informações que tornam os resultados dos institutos mineiros de pesquisa - Sensus e Veritá - muito suspeitos. Não digo que tenha havido fraude, mas o Ministério Público faria bem em dar uma olhadinha. via @kikacastro.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Do Bilhete Único campineiro: viajaremos todos de graça?

A prefeitura de Campinas está tornando o uso do Bilhete Único obrigatório nos ônibus municipais.

Em fase de transição, os busões estão vendendo passes no valor de R$ 5,30 - com R$ 2,00 reembolsáveis mediante a devolução dos cartões nos postos de venda de bilhete.

Já tem problemas ocorrendo e prevejo outros.

1) Não tem passes nos ônibus pra todo mundo. As empresas são, então, obrigadas a transportar os passageiros de graça.
2) É vedada a recusa do pagamento por bens e serviços em espécie em moeda corrente nacional; nos terminais, ok, tem os postos para a venda de créditos para os B.U.s; nos pontos no meio do trajeto, não;
2.1) Também é vedada a recusa de oferecimento de serviço (no caso o transporte) para consumidores que estão dispostos a pagar por ele. Todo mundo que tem dinheiro, ainda que não crédito no B.U., deve poder embarcar sem problema nos ônibus no meio do trajeto;
Código de Defesa do Consumidor Lei 8.078/1990
"Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:
IX - recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais"
2.2) Já que os cobradores não poderão aceitar o pagamento das passagens em dinheiro - e a venda dos passes é temporária (só até o fim de novembro) -, quem tiver dinheiro e não créditos no B.U. acabará devendo ser transportado de graça;
2.3) Mesmo no período em que os passes são comercializados nos ônibus e o carro tem passe pra vender, é ilegal *obrigar* o passageiro a comprar o passe - é venda casada: passagem + bilhete (chamado de 'casco').
"Art. 39:
I - condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos;"

Então, uma boa parte poderá optar por andar com dinheiro normalmente e deverá ser transportado de graça. A teoria econômica neoclássica preveria que *todos* os passageiros optariam por isso; teorias econômicas mais modernas que incorporam a irracionalidade dos consumidores prevê que uma parte utilizará o B.U., mas uma parte optará por andar de ônibus de graça. De todo modo, haverá *perda* de receitas no sistema de transporte público de Campinas.

Uma possibilidade será o aumento do preço das passagens - o que forçará os que ainda optam pelo B.U. a acabarem por optar a andar de graça. Aí vai o ciclo até que não terá aumento de passagem que dará conta.

Uma possibilidade não mutuamente exclusiva, é a prefeitura de Campinas ter que aumentar o repasse para as empresas.

Três evoluções possíveis:
A) Modelo de Curitiba: todos os pontos de parada no meio do trajeto terão postos de venda de passagem/crédito de B.U.;
B) Volta para o modelo com aceitação de dinheiro nos ônibus;
C) Evolução para o subsídio público total do transporte, tornando o sistema efetivamente gratuito para os passageiros. Acho que o Passe Livre torce para isto.
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Upideite(11/out/2014): Outro problema ocorrendo é: como são poucos os postos de venda, especialmente nos terminais, formam-se filas enormes para aquisição de crédito do B.U. Sim, dá pra pagar em lotéricas, mas, p.e., no terminal multimodal Ramos de Azevedo, a lotérica não aceita, só se pode adquirir créditos no posto do terminal - que só tem três caixas, com apenas um funcionando na maior parte do tempo.

Upideite(07/out/2015): A evolução do sistema foi pelo cenário B - a volta do modelo com aceitação de dinheiro nos ônibus. O que conseguiram foi eliminar a figura do cobrador, os próprios motoristas pegam o dinheiro e dão o troco para os que não têm créditos no B.U. Aparentemente o sindicato dos trabalhadores de transporte público de Campinas não são muito mobilizados - ou conseguiram um bom acordo para admitir a eliminação de postos de trabalho.

Upideite(08/out/2015): A Prefeitura de Campinas aumentou o subsídio para as empresas. Em julho deste ano o valor do repasse mensal passou de R$ 2,5 milhões para R$ 5 milhões.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Eleições 2014: Pesquisas eleitorais

Fig. 1. Evolução das intenções de votos aos candidatos à presidência da república nas eleições de 2014. Fontes: Datafolha, Ibope, Vox Populi, CNT/MDA.

A Fig. 1 apresenta o pool de dados das pesquisas eleitorais sobre as intenções de votos dos brasileiros para a presidência. Ressalte-se que há diferenças nas metodologias - antes das definições oficiais das candidaturas o total de opções apresentadas na pesquisa estimulada variou - em muitos casos, apenas três candidatos eram apresentados.

A primeira pesquisa incluída teve início em 11/out/2013; a mais recente, em 23/set/2014. Os dados estão compilados aqui.

Na Fig. 2 os mesmos dados, mas a partir de 14/ago/2014.

Fig. 2. Evolução das intenções de votos aos candidatos à presidência da república. Fontes: Datafolha, Vox Populi, Ibope, CNT/MDA.

Neste momento, a tendência de queda das intenções de votos à Marina Silva é bem nítida. Se há ou não um aumento nas intenções de votos a Aécio Neves é um pouco mais nebuloso.

Upideite(17/out/2014): Ao fim, a tendência de aumento de Aécio Neves, que parecia mais nebulosa com os dados até 23/set/2014, se confirmou e houve até uma intensificação na reta final. Seguindo para o segundo turno e com uma diferença de apenas 5% em relação à Dilma Rousseff.

domingo, 14 de setembro de 2014

Criacionismo. Nas escolas públicas, não!

O Brasil, sempre atrasado, agora está meio que tendo que enfrentar a briga do Design Inteligente contra o bom senso. Nos EUA, desde 2005, com o julgamento Kitzmiller v. Distrito Escolar da Área de Dover, está bem claro para o sistema legal que a Teoria do Design Inteligente (TDI) é só uma forma de criacionismo e este, desde 1982, no julgamento McLean v. Conselho da Educação de Arkansas, é considerado uma forma de religião, não tendo nada a ver com ciências.
Os adeptos do criacionismo estão organizados no Brasil já há um bom tempo. Inclusive do TDI. Mas agora, com o crescimento da bancada evangélica, com o sucesso de várias investidas arcaizantes dessa bancada: impedimento da oferta pelo SUS de assistência ao abortamento nos casos que são previstos em lei; retrocesso da agenda de cultura da tolerância e respeito à diversidade sexual (incluindo de orientação sexual) nas escolas; proscrição de campanhas de combate à aids/HIV voltados para o público LGBTT/queer e para prostitutas... estão botando as asinhas de fora e querem que a pseudociência religiosa do criacionismo (sob a alcunha de TDI) seja enfiada nas escolas e universidades públicas nas aulas de ciências. É a proposta que irão defender em seu segundo primeiro congresso de TDI (houve um primeiro primeiro congresso em 2010).
No Rio de Janeiro, em 2004, sob a batuta da governadora evangélica presbiteriana Rosinha Garotinho, o ensino do criacionismo invadiu as escolas públicas pela porta de trás: em meio a aulas de religião.
Não podemos ceder à essa agenda obscurantista. Que eles acreditem, é direito deles. Que ensinem aos filhos deles em escolas confessionais particulares é direito deles. Que queiram impor a visão religiosa deles a todos os demais brasileiros é um abuso que não se pode tolerar.
Duvido que eles gostassem de que os filhos deles fossem obrigatoriamente expostos às lendas de religiões de matrizes africanas.
Pra manter o respeito a todas as formas de crenças é que o Estado tem que ser religiosamente neutro, tem que ser laico. Não pode, assim, permitir a mistura de religião com ciência nas escolas públicas.

domingo, 31 de agosto de 2014

A operação de readequação sexual no programa da Marina Silva

Um antes e depois do texto do programa de governo da Senadora Marina Silva para as eleições presidenciais de 2014.

Sumiu todo o trecho a respeito da transfobia. Não se fala mais em sociedade sexista, heteronormativa e excludente em relação às diferenças (virou apenas diferenças de visões de mundo e sugere que a questão da sexualidade é simplesmente uma das "escolhas feitas em cada área da vida"). Se um certo pastor pressionar um pouco mais, vão tirar completamente menção à sexualidade (agora restrita somente ao cabeçalho introdutório - ui!).

Entre as propostas, claro, tiraram a menção àao PL 122 de criminalização da homofobia. Casamento civil vira somente união civil - e não há mais compromisso de apoiar propostas sobre a questão. Não se compromete mais a aprovar o PL Identidade de Gênero Brasileira (lei João W. Nery), só a cumpri-la caso se transforme em lei (o que é óbvio, constitucionalmente todo mundo é obrigado a obedecer à lei e fazê-la cumprir). Não se fala mais em eliminar obstáculo à adoção por casais homoafetivos, diz-se em fazer as mesmas exigências a casais homo e heteroafetivos (em princípio é o que deve ser, mas isso pode significar obstáculos diferenciais - digamos, passe a se exigir tanto de casais homo como hetero garantias dos avós). Deixa de se comprometer a produzir materiais didáticos sobre orientação sexual e novas formas de família (afinal, família é só a velha: homem e mulher). Sumiu o compromisso de manter e ampliar os programas atuais. E não vai mais dar efetividade ao Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT, só vai levar em consideração (o que permite analisar e ignorar).
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LGBT
Não podemos mais permitir que os direitos humanos e a dignidade das minorias sexuais continuem sendo violados em nome do preconceito. O direito de vivenciar a sexualidade e o direito às oportunidades devem ser garantidos a todos, indistintamente.
Texto original Texto malafaizado
Ainda que tenhamos dificuldade para admitir, vivemos em uma sociedade sexista, heteronormativa e excludente em relação às diferenças. Os direitos humanos e a dignidade das pessoas são constantemente violados e guiados, sobretudo, pela cultura hegemônica de grupos majoritários (brancos, heterossexuais, homens etc.). Uma sociedade em que somente a maioria – seus valores, tabus e interesses – é atendida pelo poder político, enquanto as minorias sociais e sexuais silenciam, não pode ser considerada democrática. É preciso olhar com respeito às demandas de grupos minoritários e de grupos discriminados. A população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) encontra-se no rol dos que carecem de políticas públicas específicas.

O direito de expressar sentimentos e vivenciar a sexualidade deve ser garantido a todos. As demandas da população LGBT já estão nas agendas internacionais. No Brasil, no entanto, precisamos superar o fundamentalismo incrustrado no Legislativo e nos diversos aparelhos estatais, que condenam o processo de reconhecimento dos direitos LGBT e interferem nele.

A Constituição de 1988 prega a liberdade e a igualdade de todas as brasileiras e todos os brasileiros sem distinção de qualquer natureza. Contudo, dados da Secretária Nacional de Direitos Humanos mostram que, de 2011 a 2012, os crimes homofóbicos cresceram 11% em nosso país. De acordo com o Grupo Gay da Bahia, houve 338 assassinatos com motivação homofóbica e transfóbica só no ano de 2012. Tais crimes maculam nossa democracia e ofendem o princípio da convivência na diversidade.

No seio da própria categoria, travestis e transexuais são o grupo mais vulnerável e invisível socialmente. A grande maioria deixa a escola ainda muito jovem. A discriminação sofrida por causa da identidade de gênero divergente faz com que tenham dificuldades para concluir os estudos. É necessário gerar um ambiente que assegure formação e capacitação profissional aos transgêneros.

Como o preconceito é difuso e muitas vezes mascarado, enfrentá-lo é tarefa intersetorial que envolve não só o governo, mas também as esferas da educação e da cultura, nas quais se constroem valores e se transformam mentalidades.
Ainda que tenhamos dificuldade para admitir, vivemos em uma sociedade que tem muita dificuldade de lidar com as diferenças de visão de mundo, de forma de viver e de escolhas feitas em cada área da vida. Essa dificuldade chega a assumir formas agressivas e sem amparo em qualquer princípio que remeta a relações pacíficas, democráticas e fraternas entre as pessoas. Nossa cultura tem traços que refletem interesses de grupos que acumularam poder enquanto os que são considerados minoria não encontram espaços de expressão de seus interesses. A democracia só avança se superar a forma tradicional de supremacia da maioria sobre a minoria e passar a buscar que todos tenham formas dignas de se expressar e ter atendidos seus interesses. Os grupos LGBT estão entre essas minorias que têm direitos civis que precisam ser respeitados, defendidos e reconhecidos, pois a Constituição Federal diz que todos são iguais perante a lei, independentemente de idade, sexo, raça, classe social. Assim como em relação às mulheres, aos idosos e às crianças, algumas políticas públicas precisam ser desenvolvidas para atender a especificidade das populações LGBT.

A violência que chega ao assassinato, vitima muitos dos membros dos grupos LGBT. Dados oficiais indicam que, entre 2011 e 2012, os crimes contra esse grupo aumentaram em 11% em nosso país. Outros sofrem tanto preconceito que abandonam a escola e abrem mão de toda a oportunidade que a educação pode dar, o que também, de certa forma, corresponde a uma expressão simbólica de morte.

É preciso desenvolver ações que eduquem a população para o convívio respeitoso com a diferença e a capacidade de reconhecer os direitos civis de todos.

PARA ASSEGURAR DIREITOS E COMBATER A DISCRIMINAÇÃO
• Apoiar propostas em defesa do casamento civil igualitário, com vistas à aprovação dos projetos de lei e da emenda constitucional em tramitação, que garantem o direito ao casamento igualitário na Constituição e no Código Civil.
Articular no Legislativo a votação do PLC 122/06, que equipara a discriminação baseada na orientação sexual e na identidade de gênero àquelas já previstas em lei para quem discrimina em razão de cor, etnia, nacionalidade e religião.
Comprometer-se com a aprovação do Projeto de Lei da Identidade de Gênero Brasileira − conhecida como Lei João W. Nery −, que regulamenta o direito ao reconhecimento da identidade de gênero das “pessoas trans”, com base no modo como se sentem e se veem, dispensando a morosa autorização judicial, os laudos médicos e psicológicos, as cirurgias e as hormonioterapias.
Eliminar obstáculos à adoção de crianças por casais homoafetivos.
• Normatizar e especificar o conceito de homofobia no âmbito da administração pública e criar mecanismos para aferir os crimes de natureza homofóbica.
• Incluir o combate ao bullying, à homofobia e ao preconceito no Plano Nacional de Educação, desenvolvendo material didático destinado a conscientizar sobre a diversidade de orientação sexual e às novas formas de família.
• Garantir e ampliar a oferta de tratamentos e serviços de saúde para que atendam às demandas e necessidades especiais da população LGBT no SUS.
Manter e ampliar os serviços já existentes, que hoje atendem com capacidade ínfima e filas de espera enormes.
• Assegurar que os cursos e oportunidades de educação e capacitação formal atendam aos anseios de formação que a população LGBT possui, para garantir ingresso no mercado de trabalho.
Dar efetividade ao Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT.
PARA ASSEGURAR DIREITOS E COMBATER A DISCRIMINAÇÃO
• Garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo.
• Aprovado no Congresso Nacional o Projeto de Lei da Identidade de Gênero Brasileira – conhecida como a Lei João W. Nery – que regulamenta o direito ao reconhecimento da identidade de gênero das “pessoas trans”, com base no modo como se sentem e veem, dispensar a morosa autorização judicial, os laudos médicos e psicológicos, as cirurgias e as hormonioterapias.
• Como nos processos de adoção interessa o bem-estar da criança que será adotada, dar tratamento igual aos casais adotantes, com todas as exigências e cuidados iguais para ambas as modalidades de união, homo ou heterossexual.
• Normatizar e especificar o conceito de homofobia no âmbito da administração pública e criar mecanismos para aferir os crimes de natureza homofóbica.
• Incluir o combate ao bullying, à homofobia e ao preconceito no Plano Nacional de Educação.
• Garantir e ampliar a oferta de tratamentos e serviços de saúde para que atendam as necessidades especiais da população LGBT no SUS.
• Assegurar que os cursos e oportunidades de educação e capacitação formal considerem os anseios de formação da população LGBT para garantir ingresso no mercado de trabalho.
• Considerar as proposições do Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT na elaboração de políticas públicas específicas para populações LGBT.
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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Pisa na fulô: O PISA deveria ser extinto? Não, apenas está sendo mal interpretado.

O Carta na Escola traz uma reportagem com questionamentos sobre o exame internacional da OCDE de avaliação dos estudantes,o PISA.

As *recomendações* dos relatórios da própria OCDE a partir dos resultados do PISA podem não ser boas. Por exemplo, há algumas comparações esdrúxulas como % do PIB investido em educação. Oras, é só questão de *não* seguir tais recomendações. Ninguém é obrigado a segui-las. Nem mesmo os países da OCDE ou os que se submetem à avaliação.

Dessa forma é estranho o pedido de que o PISA deixe de ser realizado. O problema com o exame seria se ele não medisse o que pretende medir. Segundo a reportagem um indício do problema com o teste é que a Finlândia caiu de posições na edição mais recente. O argumento é que a orientação pedagógica finlandesa é bem estável, isso não deveria levar à queda no desempenho. Só que o ranking do PISA é *relativo*. A queda na posição não reflete necessariamente a diminuição no desempenho absoluto. (Figura 1.)

Figura 1. Evolução da proporção de alunos de 15 anos da Finlândia de acordo com o nível de proficiência em Ciências medido pelo PISA 2006, 2009, 2012.

Há uma pequena queda geral do desempenho dos alunos. Pequena. Isso pode se dever a fatores como variação amostral. Mas os valores são consistentes de uma edição a outra. Não ocorre o salto sugerido pela simples interpretação da posição no ranking: como entre os países de bom desempenho as diferenças não são tão grandes, uma pequena variação no desempenho absoluto pode fazer a posição no ranking variar muito mais.

E claro que o alcance do PISA é limitado na medição da qualidade dos sistemas educacionais a partir do desempenho dos alunos. Sim, as competências aferidas não cobrem toda a gama de serviços prestados pelo sistema educacional. Mas a função do PISA é funcionar como proxy de certos conjuntos de habilidades tidas como necessárias: dentro da Matemática, ser capaz de relacionar grandezas; dentro das Ciências, ser capaz de interpretar tendências; dentro da Leitura, ser capaz de localizar informações - dentre outras dimensões mensuradas pelo teste nas três áreas. Sim, Geografia, Música, Filosofia e várias outras ficam de fora. O PISA é apenas um dos instrumentos disponíveis. No caso do Brasil, ainda temos o ENEM, o IDEB, além de avaliações regionais como o Saresp. É preciso entender o que os exames estão medindo e qual a limitação da validade.

Não é porque estão usando os índices erradamente que os índices sejam ruins. São indicadores e devem ser interpretados dentro do contexto adequado. O presidente do Inep, entrevistado pela reportagem, mas relegado ao final, tem uma posição equilibrada. O indicador é importante para se ter uma ideia do que está ocorrendo na educação.

domingo, 24 de agosto de 2014

A campanha verde de Marina (de 2010): um jeitinho?

Se for verdadeira a informação que a Folha de São Paulo traz em sua edição online sobre a neutralização do carbono emitido durante a campanha da Senadora Marina Silva à presidência em 2010 - promessa feita de compensação por plantio de árvores nativas do bioma brasileiro -, será uma grande decepção.

Segundo o jornal, a neutralização será feita (quatro anos depois...) pela financiadora da campanha (de então e de agora), herdeira  do Itaú, Neca Setúbal. Ok, a terceirização em si nem seria tão problemática... ok, será problemátca: será que os custos do plantio entrarão como doação de campanha? serão comunicados ao TSE na contabilidade? de qual campanha, na de 2010 ou na de 2014? Mas não o maior problema.

Neca Setúbal afirma que o plantio das árvores seria feito de qualquer maneira. Isso quer dizer que, se for isso mesmo: que árvores que seriam plantadas de qualquer modo serão consideradas pagas de uma promessa de campanha - então teremos uma tentativa tacanha de enganar o eleitor.

Por mais críticas que eu tenha à Marina Silva, em particular seu posicionamento a respeito do casamento homoafetivo, uma coisa que eu jamais poderia imaginar é que ela recorreria a um truque desleal desses. Não concebo que ela haja com tal desonestidade. Até maiores informações considero que houve uma falha na comunicação e que novas árvores serão plantadas para, agora, sim, neutralizar o carbono.

Do contrário, seria mais correto simplesmente admitir que se falhou em cumprir uma promessa: a contabilidade não é uma tarefa trivial, nem os custos da neutralização de carbono emitido em uma campanha presidencial (haja emissões por jatinhos e aviões de carreira!).

Via Fabiana Sousa, tw.

sábado, 23 de agosto de 2014

Lifebuoy rides again: agora diz que previne gripe aviária e suína

O sabonete antibacteriano Lifebuoy já havia aprontado antes sugerindo que prevenia resfriados. Agora vai ainda mais longe e quer sugerir que previne gripes suína e aviária.

Sim, lavar as mãos com água e sabão ajuda a evitar a disseminação de gripe - comum, aviária e suína - por remoção mecânica. Mas até aí sabonetes comuns fazem o mesmo serviço; o antibiótico presente na formulação não tem nenhum efeito contra os vírus.


A Anvisa precisa dar uma enquadrada urgente na Unilever por essa irresponsabilidade.

Cala boca, Dawkins. Da odiosa recriminação a pais de downianos.

Minha primeira reação ao ler os tweets do Dawkins sobre a imoralidade de se ter filhos downianos foi de nojo. Depois que li os esclarecimentos dele minha reação foi de vomitar (ainda que só metaforicamente).

O que me assusta é haver tantos eugenistas por aí- ainda que uns e outros tenham vergonha de dizer o nome (um cunhou o termo "para-eugenista" pra não falar que Dawkins é eugenista). Embora, num segundo pensamento, isso não seja uma surpresa.

Há os que confundem - propositadamente ou não - a discussão e querem crer que a reação de crítica a Dawkins seja por ele ter falado em aborto. O problema não é ele aceitar o abortamento (embora para os grupos pró-vida seja, mas, nem de longe apenas os pró-vida censuram o cientista inglês), o problema é ele considerar imoral quem deseja continuar a gestão e dar à luz um filho com síndrome de Down. É recriminar moralmente quem opta pelo contrário.

A premissa oculta assumida por Dawkins, de que downianos não são capazes de ter uma vida feliz e plena, é desmontada pela Down's Syndrome Association do Reino Unido: "People with Down's syndrome can and do live full and rewarding lives, they also make a valuable contribution to our society" ["Pessoas com síndrome de Down pode viver vidas plenas e recompensadoras e assim o fazem, elas podem ainda trazer valiosas contribuições a nossa sociedade."] Débora Seabra, a primeira professora downiana no Brasil, é um exemplo dessa valiosa contribuição à sociedade.

A síndrome tem um espectro de manifestação: há casos mais severos, com inúmeras complicações cardiorrespiratórias, e casos mais leves. Há os com mais e os com menos retardo mental.

A escolha deve caber exclusivamente aos pais a respeito de se querem ou não levar a gestação a termo. E não há que se recriminá-los se escolherem por abortar ou por terem filhos downianos.*

Baseando-nos no argumento de Dawkins de que se deve abortar um feto que daria origem a uma criança que não seria feliz neste mundo, se o ateísmo fosse ligado a alguma variante genética, fetos com tais variantes deveriam ser abortados - seriam infelizes num mundo dominado pela religião. Mas mesmo que o ateísmo não seja geneticamente influenciado, deveríamos criar as crianças para serem religiosas, já que estariam mais ajustadas em um mundo predominantemente religioso. E assim vai com qualquer outro desajustamento - inclusive os que poderiam ser tratados ou curados: um míope sofre até ter acesso a óculos (e nem todos terão acesso a um bom par de óculos ou lentes ou cirurgias corretivas).

A linha de argumentação de Dawkins, de pragmatismo ético calcado na maximização da felicidade e minimização do sofrimento, é da mesma escola singeriana: que admite o infanticídio no caso de pais que não podem criar os filhos.
 

*Upideite(23/ago/2014): A legislação brasileira não admite aborto nesses casos (só se a gravidez ameaçar a vida da gestante ou for resultante de estupro - independentemente de se ameaça ou não a vida da mãe - e a jurisprudência tem autorizado para os casos em que o concepto é incompatível com a vida - como nos casos de fetos anencefálicos). Embora eu não tenha uma opinião fechada a respeito de se a lei deveria ou não ser ampliada para abarcar mais casos, minha tendência é achar que deva se permitir a interrupção pelo menos até a terceira semana da gestação. Mas isso deveria ser um *direito* da mulher/casal; não uma obrigação (ainda que apenas moral).

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Terrível simetria

Parte das feministas (e não apenas elas) aplicam mal o conceito de falsa simetria. (Não sei a proporção. São pelo menos quatro casos.)

A falsa simetria ocorre quando se desconsidera a desigualdade existente entre um conjunto X de condições de A e de B para aplicar o mesmo tratamento em relação a essas condições. Por exemplo, falar que, como a mulher se aposenta com 60 anos, os homens também deveriam poder se aposentar com essa idade e não com 65 - ignorando que a aposentadoria mais cedo compensa parcialmente a desigualdade nas condições de trabalho: menores salários e dupla jornada, p.e.**

Quando se propõe tratamento igualitário para condições Y de A e de B, em que não há desigualdade sensível, não há que se falar em falsa simetria. P.e., se os homens podem gostar de sexo casual, as mulheres também podem ('poder' no sentido moral).***

O que algumas feministas parecem entender é que falsa simetria se refira à toda igualdade de tratamento proposta com base na extensão ao homem do direito/privilégio/estado dado à mulher. Se invertermos o exemplo acima: "Se as mulheres podem gostar de sexo casual, os homens também podem" - para essas, soa como uma falsa simetria.

Esse exemplo acima é hipotético, mas o seguinte é verdadeiro. Comentei jocosamente no twitter que, na Copa do Mundo de Futebol Feminino ano que vem, as mulheres irão comentar sobre esquemas táticos e habilidades das jogadoras, enquanto os homens irão falar de coxas e quadris. Pra quê? Virei machista (o que, a propósito, declaradamente eu sou*).

Claro, há pressuposições ocultas. Por exemplo, que a brincadeira acima assume que as mulheres só falem sobre coxas e traseiros dos jogadores e não sobre esquemas táticos e desempenhos. Não há nenhuma suposição quanto a isso acima. Quer dizer, supuseram que eu supus. Ótemo.

Outra pressuposição: que implica que as mulheres não tenham o direito de falar sobre a beleza masculina. Novamente, nenhuma suposição como essa lá em cima.

A pressuposição existente e que, aparentemente, não foi percebida é: há um discurso condenatório quanto à objetificação da mulher pelo homem quando este manifesta seu agrado pela beleza física feminina. Até aqui é uma crítica aceitável. Porém, surge um contrassenso quando, por parte de quem tem tal discurso, fazem-se observações de mesma natureza em relação aos jogadores. Não há, aqui, uma falsa assimetria quando se observa que: "então os homens não podem apreciar a beleza feminina, mas as mulheres podem [apreciar a dos homens]?" Não há uma desigualdade na condição humana que permita que um gênero possa ser objetificado e outro não.

A contradição também pode ser desfeita com um discurso mais liberal - em um sentido, menos moralizante: "é ok os homens falarem da beleza das mulheres, desde que as mulheres também possam fazer isso em relação aos homens". O que implica no vice versa: "é ok as mulheres falarem da beleza dos homens, desde que os homens também possam fazer isso em relação às mulheres".

*Vide a observação ao pé do texto aqui.

**Upideite(15/jul/2014): Ou seja, temos as condições X (trabalhistas: salário, jornada); A, digamos, mulheres; e, portanto, B homens. E X_A ≠ X_B (há assimetria). E temos um elemento relacionado a X, aposentadoria (x). Se queremos que X'_A = X'_B (igualdade aqui denotando equivalência), não adianta que, em: X_A + x_a = X'_A e X_B + x_b = X'_B, x_a e x_b sejam iguais (simétricos). x_a e x_b precisam ser antissimétricos; os desiguais precisam ser tratados de modo desigual para restaurardesfazer a desigualdade. Naturalmente o tratamento deve ser no sentido de reduzir a desigualdade, não de aumentá-la.

***Upideite(15/jul/2014): Ou seja, temos as condições Y (direito à liberdade sexual); A, mulheres, e B, homens. E Y_A = Y_B (há simetria). E temos um elemento relacionado a Y, prática sexual (y). Se queremos que Y'_A = Y'_B, com Y'_A = Y_A + y_a e Y'_B = Y_B + y_b, naturalmente, y_a tem que ser igual a y_b (simétricos).

sábado, 12 de julho de 2014

Algumas observações quanto à redução da maioridade penal

Continua a toda a campanha pela redução da maioridade penal (tem até político infringindo a lei e fazendo campanha eleitoral antecipada com a desculpa sobre um plebiscito temático). Já falei antes que não considero essa discussão algo a ser proscrita, mas, em sua maior parte, ela tem sido dirigida para um apelo emocional que distorce as coisas.

Uma das peças dessa campanha diz: "Ao menos quatro entre cinco brasileiros concordam com a redução da maioridade penal para 16 anos. Por quê, então, ainda estamos reféns desses marginais precoces?" (Ainda por cima ignora que a mudança, legalmente, não é nada simples. A menoridade penal até os 18 anos é um dos direitos e garantias individuais, na interpretação de vários juristas, é uma das cláusulas pétreas, portanto não sujeitas a mudanças por emendas constitucionais - seria preciso uma nova constituição.)

Comentei rapidamente sobre a questão (a respeito de menores psicopatas), retomo o tema listando alguns pontos de meus pensamentos.

1) Pensando com meu fígado, eu queria ver menor infrator tudo na cadeia - já fui assaltado por trombadinhas noiados;
1b) Mas é com o fígado, desejo de vingancinha.

2) Tem ainda um bocado de hipocrisia: uma boa parte (a maioria?) dos que defendem redução da maioridade penal, pensa só exatamente nesses trombadinhas.
2b) Quando é mauricinho de classemédia que mata um índio queimado, que agride pelas costas com lâmpada fluorescente quebrada alguém que acha que é homossexual, a conversa tende a mudar de figura: "são só crianças, estão arrependidas, não farão isso de novo"...
2c) O que a Veja dizia quando eram adolescentes de classemédia que pmataram o pataxó Galdino:
"Qualquer pessoa honesta com seus sentimentos sabe que, diante de um crime brutal, às vezes o que se deseja não é justiça mas a vingança, que dá satisfação imediata, alivia e até repara a dor sentida. Mas a Justiça não é isso. Ela existe para que as partes sejam ouvidas, os fatos examinados e, por fim, um juiz, no silêncio de seu gabinete, dá uma sentença de acordo com a lei e com sua consciência. É fácil pedir punições exemplares  especialmente quando se trata dos filhos alheios. Também é agradável empolgar-se com o clamor popular  a dificuldade é que, muitas vezes, se clama pelas causas erradas, ou mesmo por penas injustas, ou até pela condenação de inocentes, como ocorria no Brasil nos anos do regime militar. 'Um juiz não pode viver numa redoma, alheio à realidade da sociedade em que vive, mas também não pode julgar pelo clamor popular', diz um ministro do Supremo. 'Julgar pelo clamor popular é o mesmo que linchamento.'"
2c.ii) Quando um universitário foi morto por um adolescente pobre, a mesma Veja disse que a maioridade penal é um dogma que precisa ser derrubado.

3) Só vou achar que a defesa da redução da maioridade penal não é uma hipocrisia quando:
3a) Defender a redução não só para os pobres e pretos; mas também para filhos adolescentes e/ou pré-adolescentes de brancos e ricos;
3b) Não incluir apenas a redução da maioridade penal, mas geral - civil (casamento, empresa, habilitação para dirigir, permissão para compra e venda de bebidas alcoólicas e fumígeros, etc.), sexual (vão querer mesmo abrir mão da legislação anti-pornografia infantil?), trabalhista (se bem que tem gente louquinha pra que a legislação contra o trabalho infantil caia), político (sair pelo menos para vereador), etc, etc.

4) Óbvio que continuarei contrário à redução da maioridade (penal e geral), mas reconhecerei que não estarei diante de um hipócrita.
4b) Minha argumentação básica é a seguinte: a redução da maioridade penal passa por atribuir ao infrator discernimento suficiente sobre seus atos (condição necessária para a imputabilidade), mas se tem consciência suficiente a respeito de suas próprias ações, decorre que todos os demais vetos que visam proteger os menores justamente por supostamente não terem plena posse de capacidade de julgamento sobre sua própria vida não fazem sentido: os menores têm capacidade para julgar se devem ou não beber, fumar, prostituir-se, participar de filmes pornográficos, abrir empresa, casar e constituir família...
4c) Aceito argumentações baseadas caso a caso em exames psicológicos sobre a capacidade individual de discernimento.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Goodbye Blue Monday*

"John Peacock inspirou fundo. Enquanto agitava furiosamente os dados entre as suas mãos, mantinha os olhos fixos em seu oponente. No momento em que sentiu que o adversário desviou o olhar, lançou os cubos sobre o feltro verde da mesa.
Olhos de cobra! Exatamente o valor que precisava.
Peacock sagrava-se o mais jovem campeão de lançamento de dados na história da competição. Derrotando nada menos do que Anthony "Lucky" Lewis, o único bicampeão da modalidade.
O caminho de Peacock não foi fácil. Nas semifinais havia vencido Edgar Pierre Lablond, representante da forte equipe francesa - que já havia emplacado um semifinalista ano passado. Nas quartas despachara a surpresa do torneio, o tailandês Kopi Luwak, estreante no Campeonato Mundial de Cubopédio e que, nas oitavas conseguira uma vitória inesperada sobre o campeão de três anos atrás: Jürgen Weisz.
A saga de Peacock reflete muito de sua própria trajetória de vida. Campeão improvável em seu colégio, custou a conseguir um patrocínio para alcançar as prévias regionais - ninguém apostaria em um estreante e completo desconhecido. Mas uma bem sucedida campanha no LulzYourKe$h - site de crowdfunding - permitiu-lhe amealhar dinheiro suficiente para sua preparação para o campeonato nacional - onde obteve o índice para o mundial.
'O segredo está todo nos punhos', revela o novo campeão. Seu treinador, Carlos LaSalle, mostra um profissional esforçado: 'Ele faz pelo menos 200 lançamentos todos os dias.' Essa dedicação chegou a ameaçar a carreira do atleta: um princípio de tenossinovite quase o incapacita para a atividade. Passou por intensa terapia durante seis meses valendo-se de um polêmico tratamento à base de pomada de ervas e meditação.
Isso também parece ter marcado muito Peacock, que, já recuperado, continuou a praticar a meditação.
'Ele mentaliza as jogadas', diz o especialista em cubopédio, Mark Shagall. 'Aquela inspirada característica que ele dá antes do lance faz parte do processo de visualizar o resultado.' A intimidação do adversário pelo olhar fixo de lince também serve para desconcentrar o rival. 'O poder mental dele é muito alto', reconhece Weisz, que já havia enfrentado Peacock em outra seletiva.
Mas não é apenas a técnica e a mente que faz o campeão. Sua nutricionista, Edna Macendale, diz que a alimentação balanceada também é fundamental para que Peacock possa obter bons resultados: 'A competição é um momento de grande estresse, e o corpo necessita de muita energia. Também a dieta deve fornecer muito potássio para a concentração mental.'
LaSalle também passa dicas sobre os adversário que irá enfrentar: 'Se o adversário tem a tendência de fazer o lançamento dos dados com a mão direita, é bom que Peacko observe bem e faça o lançamento pelo lado oposto para equilibrar o jogo.'
Apesar de ser considerado um azarão, Peacock certamente não chegou ao topo por acaso. Ele se preparou muito durante toda a sua vida profissional. Estamos provavelmente presenciando uma nova hegemonia no esporte."
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Subtítulo de novela conhecida como "Breakfast of Champions" de Kurt Vonnegut, 1973.

domingo, 29 de junho de 2014

"They're us. We're them and they're us."*

Inspirado em miniconto de PZ Myers.

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A brisa da madrugada lhe regelava os ossos. A fogueira Dakota estava quase extinta, mas àquela hora não convinha se aventurar nos arredores em busca de mais lenha. Encolheu-se em posição fetal sob a coberta - uma fétida pele semiapodrecida de carneiro. Há dois sóis não ingeria nada além de água suja fervida.

A Dra. Lamarino já viveu dias melhores. Fungou em um raro instante de divertimento com uma piada pessoal: pensou que também já vivera dias piores em seus, agora distantes, anos de pós-graduação.

***
"Sra. Atalia, tem um rasgo no seu macacão."

"M..."

Não havia de ser nada. Só uma aborrecida quarentena de uma semana. A pressurização do traje certamente evitara a entrada de qualquer patógeno que estivera no ambiente, se é que haveria algum fora dos frascos, placas e tubos selados naquele laboratório NB-4.

170 horas depois, sem sinal de qualquer sintoma, e com todos os exames serológicos resultando em negativo, Lamarino foi promovida para o estado de observação e liberada do isolamento.

Quatro meses depois, uma leve febre. Não, não haveria de ser... haveria? Novos exames indicaram uma gripe comum. A tempo de participar de um congresso de virologia no México.

Duas semanas, já em casa, um email cancelando a visita do Dr. Romero agendada durante o congresso, por motivos de força maior. Lucio Romero, aclamado neurovirologista (e alquimista amador - suas experiências em busca da lapis philosophorum eram conhecidas, mas recobertas com um constrangido silêncio acadêmico ou atribuída à sua notória excentricidade), fora acometido por uma estranha doença de rápida evolução. Tornara-se progressivamente ansioso, irritadiço, insone, violento, e alucinado e delirante. Chegara a morder a enfermeira em um de seus acessos. Tudo isso, claro, foi mantido no mais absoluto sigilo. Ou tanto quanto foi possível se manter.

Fatos estranhos começaram a se acumular e a escalar. A enfermeira mordida também veio a se tornar agressiva e a atacar outras pessoas. "Quero meu emprego de volta!", rosnava enquanto acertava o diretor do hospital com uma cadeira. Ao fim do ano um forte sentimento de pânico havia se instalado. O protocolo Smith? fora acionado. Atire antes, pergunte depois. Casos similares começaram a pipocar ao redor do globo: Rússia, Japão, Austrália... Fronteiras foram cerradas. Espaços aéreos, fechados. Deslocamentos internos, restritos. Mas a agitação popular não pôde ser contida. Saques, linchamentos, esquartejamentos, incêndios criminosos, violações de todo tipo. Relatos de cadáveres ressurretos ávidos por carne humana. "Na cabeça, mire na cabeça!"

Artefatos nucleares chegaram a ser detonados, porém com destruição localizada. O grosso da mortandade inicial fora ação de formiguinha: civis pesadamente armados. Corpos putrefatos espalhados por toda parte. Economia, da mais básica, paralisada. Doenças e desnutrição multiplicaram por cem o efeito da carnificina inicial - que continuava, ainda que a um ritmo bem mais lento com o esgotamento das munições: armas de fogo deram lugar a equipamentos de guerra mais básicos, lanças, facas, flechas, porretes e até pedras e mãos desnudas.
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Zumbis... "Zumbis", fungou Lamarino em outro instante de divertimento. A ironia é não havia zumbi algum. Nunca houvera. Mas a mídia e a sociedade não estavam interessadas em um caso de intoxicação por metais pesados - anos de inalação de vapores de mercúrio e ingestão de chumbo, durante os experimentos alquímicos da transmutação de metais em ouro haviam afetado o sistema nervoso de Lucio Romero. Alterações iniciais de comportamento foram tidas por excentricidades de um gênio já esquisito. Apenas próximo ao estado terminal, com o agravamento do quadro, reconheceram o problema. A progressão fora bem mais lenta do que pareceu ao fim.

O ambiente estressante de um hospital nunca foi um bálsamo aos espíritos de seus funcionários. A demissão resultada de uma operação de acobertamento de um pequeno escândalo bem poderia ser o gatilho a acionar um ataque de fúria.

Entre esses dois fatos, várias histórias poderiam ser criadas. Claro que o storytelling mais cativante suplantaria quaisquer das demais alternativas. O zeitgeist funcionaria como catalisador e filtro, não importava a verdade, pouco até a verossimilitude. Afinal, o que era a verdade senão uma construção social? O pós-modernismo era a melhor muleta para o sensacionalismo. Mas o alimento era mesmo a cultura popular pelo bizarro. Zumbis. Sim, zumbis eram melhores do que envenenamento e neurose ocupacionais. A sensação da anomia - contra que governos inconfiáveis a espionarem descaradamente seus cidadãos em nada ajudavam - fazia as teorias da conspiração fermentarem. Virologista. Ah há, claro que era uma cepa a ser utilizada como bioarma. Um vírus zumbificante. Os que eram ridicularizados por anos como teóricos da conspiração estavam certos. "Eu sabia" era a reação de muitos. "Como você não quer ver a verdade, Dra. Atalia? Claro, você é mais uma vendida ao sistema da indústria farmacêutica, do complexo industrial-militar, do capitalismo imperialista."

Fatos sem correlação eram agregados pelos noticiários ávidos em angariar audiência e leitorado. Ataques histéricos que sempre houve em qualquer lugar do mundo, de repente, faziam parte de uma única pandemia.

Caça às bruxas, vendetas pessoais, pura maldade puderam extravazar sob a égide de autodefesa. Mesmo em países de legislações restritivas quanto à posse de arma não era difícil de se obter ilegalmente mesmo em situações normais. À progressão da dissolução da normalidade social tanto menor a capacidade de se fazer cumprir a ordem jurídica. A escalada era irrefreável.

Zumbis... "Zumbis", fungou Lamarino novamente. Sim, de fato havia. Um monstro do reino dos mortos a se alimentar dos vivos; uma criatura morta insensível que se recusa a se ver como tal, a fagocitar as energias vitais das frágeis criaturas viventes. Zumbis. Eles são o sistema. Zumbis. Ele são a sociedade. Zumbis. Eles somos nós. Zumbis. Nós somos eles.

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Os primeiros raios de sol afastavam o gélido ar do interior da floresta de araucárias. Atalia Lamarino empacotou seus parcos pertences. Sua barriga roncava, mas aquele local não era seguro. Havia ainda hordas de bandoleiros por ali. Procuraria outro lugar. Um lugar mais afastado do que restava de zumbis sobreviventes. Um lugar onde pudesse finalmente terminar de ler seu exemplar do Manual Compacto dos Escoteiros-Mirim. Poderia aprender a fazer um pão de caçador, o que lhe garantiria um recurso mais estável de comida. Por ora, era caminhar.

Caminhar pra algum destino indefinido. A febre, que jamais lhe abandonara por completo nestes anos caóticos, recomeçara. Mas aquele local não era seguro.

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* Barbara, The Night of the Living Dead, 1990